domingo, 24 de dezembro de 2006

Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá



"Durante um mês, ele, Renato e Marcelo foram trabalhando um repertório que pudesse preencher o tempo previsto para cada apresentação, algo entre 30 e 40 minutos. Muitas músicas ainda estavam apenas no baixo e na bateria, como "Soldados". Os três entendiam-se muito bem. Fechavam-se na sala do Brasília Radio Center e começavam a jam. Normalmente a partir de uma batida de bateria. Às vezes de uma linha de baixo ou de um riff de guitarra. Iam em frente até trombar com alguma coisa que, devidamente burilada, ganhava uma letra, possivelmente esboçada nos cadernos de Renato. Era um processo de composição tranqüilo, instintivo, mas que não raro resultava em compassos inteiramente malucos. Súbito a música mudava de andamento antes de voltar para o tempo original. E, no entanto, se movia. A palavra é batida mas ainda vale: havia uma química poderosa ali. Talvez porque fossem pessoas de temperamentos musicais inteiramente distintos: Renato tinha a intuição, bolava coisas impossíveis na teoria que davam certo na prática; Marcelo era meio místico, achava que era tudo questão de captar melodias e climas; e Dado trazia com ele a razão, volta e meia repetindo que 'música é matemática'.

O guitarrista ainda chegou a tempo de co-assinar, por exemplo, 'Ainda é cedo' com os dois - e com seu antecessor, Ico. O repertório daquele que viria a ser o então pouco mais que sonhado primeiro LP, a ser gravado um ano e meio depois, estava quase todo lá naqueles ensaios. 'Teorema', 'Petróleo do futuro', 'Baader-Meinhof Blues', sem falar na herança do Aborto Elétrico, como 'Conexão amazônica'. Eram rocks doutrinariamente singelos, movidos pela energia punk mas com vôos mais altos nas letras. Afinal, 'Ainda é cedo' era uma canção de amor, ou melhor, um flagrante doloroso do amor se transformando em desamor. Quer coisa mais triste do que 'Falamos o que não devia/ Nunca ser dito por ninguém/ Ela me disse: eu não sei mais o que eu sinto por você/ Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê'? 'Teorema' escondia uma private joke sobre sexo oral em seus versos introdutórios: 'Não vá embora/ Fique um pouco mais/ Ninguém sabe fazer/ O que você me faz'. E tanto ela quanto 'Petróleo do futuro' mostravam uns garotos que faziam perguntas ('Ah, se eu soubesse lhe dizer/ O que fazer para todo mundo ficar junto/ Todo mundo já estava há muito tempo') ao mesmo tempo que já arriscavam algumas respostas ('Não tenha medo/ Não preste atenção/ Não dê conselhos/ Não peça permissão/ É só você quem deve decidir o que fazer/ Para tentar ser feliz')."

("O Trovador Solitário", de Arthur Dapieve. 2006, pp. 64-65).

Í.ta**

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