quinta-feira, 24 de agosto de 2006

XLVI

"Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato de que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos".

(Fernando Pessoa - Poemas completos de Alberto Caeiro)

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

nada para além dos olhos

"Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma".

Fernando Pessoa (Poemas completos de Alberto Caeiro)

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

morrer / viver?


"Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define,
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destingue,
[uma
(?) [Um verso ilegível e incompleto.]"

(Fernando Pessoa) - Poemas completos de Alberto Caeiro.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Dama de Branco

à J.C.E

Em ti tudo hoje reluz.

Tua imagem a mim
reflete
a paz.

Teu rosto -
(sorriso e olhar) -
alimenta-me o espírito,
resignifica-me o dia.

Tua essência irradia
a beleza só tua - única -
de teu SER.

A ti sou grato
por oportunizar em mim
esse sentimento (amor)
E por compartilhá-lo.

Í.ta **

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

vazio (ou apenas cheio demais)


hoje

hoje
eu apenas queria
receber uma ligação.
agora ou logo mais
às 2 ou às 7 da manhã
e que apenas
a voz do outro lado da linha
me dissesse:
"liguei para saber como você está".

hoje
eu apenas gostaria
de encontrar na caixinha do correio
ou sob minha cama
uma carta.
pudesse ser sem remetente,
de um desconhecido
de uma fada, ou anjo
mas que apenas contivesse
palavras tais quais:
"serenidade. esse o pilar imprenscíndivel
à construção da SUA obra. o caminho,
você sabe,
está apenas no início,
e é promissor".

hoje
eu apenas desejava
chorar.
desafogar meu SER -
entupido de lodos, águas sujas
de mares e rios -
no ombro de uma pessoa
ou em meu próprio ombro
apenas não mais
em meu coração.

hoje
eu apenas almejava
um olhar, um sorriso e um beijo.
recebi-os!
estou por completo.
o medo vem de mim, nasce em mim
morre em mim
a paz vem dela, nasce em nós dois
nunca morre; não deixamos.

Í.ta **
hoje
eu apenas estou
para sentir esses
Versos
que por mais que
me façam sentir a dor
da (in)capacidade
aliviam-me, um pouco,
toda angústia e tolice
em querer à essência chegar, senti-la,
e a novos ouvidos insensíveis explicá-la;
pura tolice.

hoje
eu apenas vou viver
com duas frases,
que acolhem-me
e afagam meu cabelo (externamente)
e meu espírito (internamente):
"nada te cura senão tu mesmo"
"chega-a-ser o que tu és".

hoje
agora,
apenas agora,
ME SENTI.
obrigado
pela licença,
eternamente.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

passar (ainda...)


AINDA

Ainda que exista um possível não
Ainda que o sim se faça presente
Ainda que a morte habite o coração
Ainda que o sol não mais esquente
Ainda que escrever seja desnecessário
Ainda que viver seja mais do que a própria vida
Ainda que arriscar seja temerário
Ainda que a tristeza roube a alegria
Ainda que ao caminhar corra-se o risco da queda
Ainda que a queda signifique o adeus
Ainda que nossas almas se transformem em pedra

Se o alimento de uma alma for a esperança
Ou se a força da esperança seja a alma
Recompensador é saber que ainda existe o ainda

Í.ta **

passou, que bom...
talvez ainda seja cedo, mas já é algo bem concreto ^^
...

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Passar (questão de tempo)


Tudo passa...

O detalhe não está no final, mas sim, no processo em si. Logo, tudo passa, ok. Porém tudo isso que passa deixa, ou não, cicatrizes/seqüelas/marcas, algumas muito fortes e profundas, outras mais brandas, alegres, menos doloridas. A questão é o PROCESSO em si. É nele que se SENTE com o mais puro e sinceo sentimento. É dele que pode-se extrair a essência de "tudo que passa".

Í.ta **