terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

vigílias

I
subi as pedras da minha infância
tornei o vazio mar
reconvexo

II
dias de praia
transpareço mar
pele queimada

III
descurvar o que não sou mais eu
o fundo do mar é pico
é reta

IV
há conforto
dentro do mar
coração dissecado

V
renasço sem temor
o mar em mim era falta
amanheço descascado

VI
espelho de memória
é o mar
não precisa doer para ser bonito

ítalo puccini

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

anoiteça e amanheça eu

sempre precisei de um pouco de atenção de um amor marginal e no meio de tanta gente aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo de amargo então salgado ficou doce assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços quando eu encontrei você entre tanta gente chata sem nenhuma graça você veio foi no mês que vem foi quando eu chegar na hora em que eu te quis deixar pra amanhã deixar pra depois é bom se lembrar de respirar de novo de novo dava pra sentir por todo o corpo e eu te preparei uma surpresa eu chego pra dizer eu vim te ver e você veio pra ficar você que me faz feliz você que me faz amar assim meu peito agora dispara vivo em constante alegria meu coração selvagem tem essa pressa de viver no meu lugar onde você quer que ele seja pois eu estou te esperando desde que eu nasci e o amor que eu guardava eu guardei pra você então deita e aceita eu

eu protegi teu nome por amor dentro da tua orelha fria em segredos de liquidificador

faço nosso o meu segredo mais sincero eu tenho meus segredos e planos secretos só abro pra você mais ninguém eu vou te ser sincero deixa eu dizer que te amo isso me acalma me acolhe a alma isso me ajuda a viver não há nada de novo na noite venha cá não há nada a temer eu tou com uma vontade danada de te dar todos os beijos que eu não te dei pode ser que o silêncio te escute e no escuro você possa ver pode me algemar porque eu não quero me perder atravessa o meu peito liga o meu peito no teu antes dessa noite acabar dance comigo quando você me amar me abrace me beije bem devagar que é pra eu ter tempo tempo de me apaixonar e escute é a nossa canção cuide de quem te quer e cuidemos de nós é o amor que está aqui e sempre que eu pensar no meu bem vou colorir o dia deixa que eu seja o céu e receba o que seja seu

flutua ninguém vai poder querer nos dizer como amar

às vezes no silêncio da noite quando bate aquela saudade eu pensava que nunca mais ia me apaixonar na vida foi quando o vento fez do teu vestido um dom que deus te deu seus olhos e seus olhares milhares de tentações digo aqui tou eu te amo e as tuas pernas quero bem é só relaxar é só se entregar tiro a roupa com um riso acanhado meu bem me chame de teu põe algo pra gente ouvir pode me trancar não quero te machucar não devo te machucar e deixa a música tocar me interessa esse lado teu me desarma me convenceu me dou eu quero partilhar a vida boa com você porque amor tão grande tem que ser vivido a todo instante a cada hora que eu tou longe é um desperdício a vida é boa mas é muito melhor com você discorda do que eu penso não me importa eu quero só você deixa o que seja ser

estranho seria se eu não me apaixonasse por você

sabe tem teu perfume no meu cobertor e teu cheiro que ainda ficou na minha mão por isso não vá embora por isso não me deixe nunca nunca mais sempre que der mande um sinal de vida de onde estiver dessa vez qualquer coisa que me faça pensar que você está bem por que você não cola em mim volta que o caminho dessa dor me atravessa que sem você a vida não mais me interessa eu fico sonhando acordado senta aqui do lado e tira logo a roupa e vamos conversar então são mãos e braços beijos e abraços e eu já não sei o que faço rezando pra um dia você se encontrar em você e perceber que o que falta em você sou eu que meu amor é bem maior que tudo que existe não é impossível eu não sou difícil de ler para falar de amor deitar no seu colo então deita e receba o meu corpo no seu corpo

pra virar poesia desse amor desse amor marginal
pois nesse mundo algo há de valer à pena e nas coisas do amor convém melhor pagar pra ver pensei numa canção meu bem que falasse de amor então vem cá quando eu estiver fogo suavemente se encaixe guarde uma frase pra mim dentro da sua canção é você que tem os olhos tão gigantes e a boca tão gostosa me dá um beijo que eu quero teu cheiro grudado no meu edredom sorriso ao sono me sufoco em meu cobertor pra não me acordar sabe sonho demais com você dentro de tudo o que cabe em ti me agarram pelas pernas certas mulheres como você me levam sempre onde querem e já me sinto como um velho amigo seu e se existisse alguém que pode resgatar minha fé no mundo existe nós ainda bem que agora encontrei alguém quero ser seu quero ser seu quero ser seu fica tudo bem fica fica tudo bem quero me aquecer sentir o teu calor teu corpo é meu espelho em ti navego

e o teu momento passa a ser o meu instante

bem vindo ao que sou eu só não se perca ao entrar no meu infinito particular é só mistério não tem segredo meu bem meu bem andar caminho errado pela simples alegria de ser você tem que acreditar em mim não dê ouvidos à maldade alheia teu lábio é tão doce doce feito o mel quero me aquecer sentir o seu calor rolar rolar na cama te chamar de amor fazer mil poesias pra te conquistar se for preciso eu giro a terra inteira até que o tempo se esqueça de ir pra frente e volte atrás milhões de anos quando todos os continentes se encontravam para que eu possa caminhar até você continuar aquela conversa que não terminamos ontem tou com uma saudade apertada de ir dormir bem cansado e de acordar do teu lado pra te dizer que eu te amo que eu te amo demais

ítalo puccini

domingo, 27 de janeiro de 2019

essa casa bethânia

são silêncios bethânia
e risos bethânia
dores bethânia

é prazer bethânia

são espaços bethânia
e águas bethânia
cores bethânia

é vento bethânia

ítalo puccini

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

morrer é sempre solitário

eu hoje pendurei as roupas
passei o café
lavei a louça
varri a casa

você não está mais aqui

minha tristeza é egoísta
é deserto
é frieza em areia
gosto cru de palavra

você não é mais rotina

a primeira contradição foi o arroz
depois o amor platônico
encurtamento de afeto
em sucessão de curvas

você anda em linha reta

o conforto lhe é morada
espaço de silêncio
mas no lado b do outro
ninguém mexe

você matou o amor na semente

ítalo puccini

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

e ainda era muito e muito pouco

quero quero quero tanto tanto tanto fluem flutuam ressignificaram os nós entre nós tem que acabar o hoje e o amanhã pra sobrar só o ontem não usam sinais de pontuação pois não há o suficiente para que se expressem e eles não cansam de fazer isso porque o entendimento entre o dito e o não dito basta eles se bastam a partir do nós que existe e existem os dois o nome dela a boca faz bico o nome dele a boca abre engolem-se devagarinho e duradouro gostam do nós assim ela vê nele a inteligência por trás de cada ação ele passaria dois dias só naquela boca enquanto ela faria casa nas tatuagens dele ambos entretanto precisam existir um pouco às vezes ele quer paz ela caos equilibram-se ela aquário libra virgem e aries ele gêmeos leão aquário e gêmeos ela reconhece o potencial harmônico dele ele versa dela os erros e os problemas fica mais suave desse jeito ela guarda dele as palavras e pede manda pra mim um texto teu amo lê-los e amo mais ainda ouvi-los sabia ele se arrepia a cada vez em que ela fala isso arrepiar é gostoso a vida no ápice ele é ótimo ela é excelente é um acaso bonito ele ela a paixão às vezes o medo ele vai e volta como se fosse a primeira vez ela se recorda dos momentos em que sabia que existia ele e ele não sabia que existia ela ela quer tudo inclusive o coração quebrado o acaso é violento às vezes às vezes o acaso também é gostoso às vezes é pavio da coragem do desejo esse desejo é bordô é alimento dos silêncios que brotam enquanto existem ele e ela um com o outro gostam do silêncio respeitam o silêncio é bonito além de triste e gostosa a especulação é gostoso o jeito de pensar de um no outro é no silêncio que o nós existe quando eles pensam no nós sem esforço tudo ótimo fora a falta da mão dela no cabelo dele reflexo do nós que existe entre eles eles confiam eles esperam eles encontram beleza em lugares estranhos em segredos de liquidificador ela gosta de quando ele corta o cabelo ele gosta de todas as roupas que ela usa eles se imaginam sem roupa também dormindo juntos sexo em teoria ela nunca viu prefere a prática preferem é como se eles estivessem em tudo uma tentação eles se percebem inteiros pela solidão e pela palavra entretanto às vezes não é música colocaram amor marginal arranca pedaço é violenta é paixão é só sentir transformaram em poesia a falta completam-se colocam a teoria em prática florescem ideias lindas engolem-se pelas palavras não desse jeito mas sim as palavras que um dá ao outro guardam todas pois explicar sofrimento é complicado o melhor é guardar um tempo e deixar ir não existe amor pela metade porque o amor leva tempo paciência gafanhoto afinal quem é que sabe que existe nós 

ítalo puccini

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

são vírgulas

as pernas, inclusive, têm vida própria, elas não sossegam, mesmo o corpo assim estando, parado, como exemplo, ao sentar-se para um lanche, uma refeição, alguma atividade de estudo ou trabalho, este corpo citado às vezes relaxa, mas elas, as pernas, as irrequietas pernas, balançam ao ritmo de algo que apenas a elas compete saber, parecem dançar ao som de alguma música, por ninguém mais ouvida, somente por elas, levando-as a se abrir e fechar-se, frenética  ou calmamente, entrecruzadas ou espaçadas, juntas-batendo-joelho-com-joelho, a um lado e ao outro, ritmadas, ou, enquanto uma descansa, a outra sacode para cima e para baixo, para cima e para baixo, descontroladamente, como se em poucos segundos fosse desgrudar-se do corpo e sair quicando, ainda ritmadamente, ainda ao som daquela música que lhes é própria, ou, também, há a perna que balança quando sobrecruzada à outra, típica posição culturalmente imposta às mulheres, porém tão comum aos homens, aos que são capazes de realmente cruzar uma perna sobre a outra e deixá-la a balançar, como se ali coubesse uma criança ou um cachorro ou um gato recém-nascidos, dependurados nesta perna que, da mesma forma, com igual ritmo, sobe e desce, sobe e desce, talvez assim descansando, talvez simbolizando a inquietação daquele a quem elas pertencem, ou são eles que a elas pertencem, não se sabe, mas elas não param, as pernas, enquanto parado está o corpo, há um movimento contínuo, independente, comum a todos os seres humanos, em alguns mais frenético, em outros menos perceptíveis, porém existentes, constantes, apesar das mudanças de posições e de ritmos, são gestos entre vírgulas, condutores de uma linearidade rítmica ao corpo no momento deste levantar-se, quase uma intervenção artística, uma espécie de empurrão justamente para este ato de levantar-se, algo inclusive com nome próprio, a síndrome das pernas inquietas, ou síndrome de ekbom, diagnosticada clinicamente, cujos sintomas envolvem alteração de sensibilidade e agitação motora involuntária, palavras bonitas, mas que não alcançam o significado preciso deste ato, ao contrário, podem até mesmo distorcê-lo, através da alegação de uma qualidade de vida comprometida ou da sensação de desconforto, outras expressões consideradas importantes, porém irrisórias, não há dores, não há formigamentos, não é predisposição genética ou ausência de dopamina e ferro em áreas motoras do cérebro que provocam este balançar das pernas, a ciência não alcança o que a arte faz acontecer com elas, as pernas, essa música própria, essas vírgulas, esse gesto espalhafatoso, deve ser realmente bom balançá-las,

ítalo puccini

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

catorze anos

eu adoro quando ele diz vou lavar a louça eu me dirijo ao sofá da sala descalço os chinelos estendo minhas pernas entreabertas e começo a me masturbar sempre visto saia nesses momentos quando eu sei que ele vai dizer vou lavar a louça e eu sei que ele vai dizer vou lavar a louça porque no dia anterior enquanto ele trabalha no escritório escrevendo romances ou ensaios e lendo romances da editora da qual ele é dono eu sujo muitas peças de louça e as deixo propositalmente bagunçadas pelos vários cômodos da casa pois assim eu percebo o momento no qual ele começará a recolhê-las e a fazer aquilo que me atraiu nele quando há catorze anos ele durante as gravações de um filme cujo enredo tinha por base um romance de autoria dele e no qual eu era a atriz intérprete da personagem principal me disse vamos jantar lá em casa que depois logo se tornou aqui em casa ao que eu respondi sim vamos e depois de jantarmos um risoto de funghi preparado por ele enquanto conversávamos sobre os autores dos quais ele mais gosta e os cineastas com os quais eu mais me identifico e bebíamos um vinho branco ele recolheu os pratos os talheres os vasilhames onde servira o risoto de funghi encheu minha taça de mais vinho dessa vez um tinto e começou a lavar a louça eu o via o torso dele definido na camiseta que ele usava de cor cinza escuro camiseta que em noites futuras eu usaria constantemente depois de transarmos quando ele me convidava a acompanhá-lo até a cozinha de estilo americano me dizia venha farei algo para comermos e eu nem pedia a ele se poderia emprestar dele uma camiseta eu sabia onde ele as guardava as camisetas então eu o esperava sair do quarto me levantava da cama vestia minha calcinha que ele sempre tirava com a boca e já começava a me chupar com aquela boca bem grande dele com aquela língua que me comia como eu nunca fora comida por algum homem ou mulher e eu pegava aquela camiseta de cor cinza escuro e me dirigia à cozinha de estilo americano me sentava à bancada central ele me servia um copo com água gelada ele sempre soube que eu gosto de tomar água gelada depois de transar mas eu nunca disse a ele esse meu gosto e mesmo assim ele sempre soube e começava a preparar algo leve para comermos às vezes deixávamos estar e ficar o silêncio quebrado apenas pela minha voz cantando edith piaf la vie em rose ne me quitte pas non je ne regrette rien enquanto ele a nós preparava algo e me deixava cantar sem nada perguntar poderiam ser ovos mexidos com queijo e temperos poderiam ser torradas com geléias variadas olhar para ele me preenchia vê-lo de costas pra mim me excitava sabendo que de repente ele viraria rapidamente o rosto me dirigiria um sorriso bem largo boca bem aberta aquela boca dele bem grande tudo nele era grande e eu esperava pelo momento em que ele recolheria talheres copos pratos e os lavaria cumprindo uma função que eu não esperava homem algum cumprir e no início eu não me deitava no sofá para vê-lo lavando a louça eu continuava sentada à bancada levava meus dedos à minha boceta ainda encharcada pelo gozo dele começava a me masturbar ali mesmo de maneira suave e discreta sem ele saber e a mim não interessava gozar novamente eu sentia uma vibração incontrolável pelo corpo e só queria tocar minha boceta olhando para ele eu acho que ele sabe que eu me masturbo quando o vejo lavar a louça mas ele nunca me disse se sabe e eu nunca perguntarei a ele pois esse mistério é um dos motivos pelos quais eu não perdi essa vibração esse tesão nunca mais saiu de meu corpo já são catorze anos me masturbando enquanto ele lava a louça e ouve los hermanos música da qual eu não gosto mas não me importo de ouvir enquanto ele lava a louça porque ele dança ele canta ele é inteiro e esse respeito ao espaço de cada um esse silêncio permitido por nós dois a nós dois enquanto o outro existe é o que mantém o nós que construímos durante esse tempo que tornamos nosso e desde que eu me mudei para essa casa a convite dele quando depois de gozarmos ele me disse vem morar comigo e então eu sentei no colo dele sentei no pau dele ainda duro e começamos a foder de novo e no momento de gozar mais uma vez eu gritei meu corpo se contorceu e eu disse venho e essa vontade incontrolável de me masturbar enquanto ele lava a louça nunca mais saiu do meu corpo e há catorze anos eu adoro quando ele diz vou lavar a louça eu me dirijo ao sofá da sala descalço os chinelos estendo minhas pernas entreabertas e começo a me masturbar 

ítalo puccini

quarta-feira, 22 de julho de 2015

fios de barba e de memória

            há quem deseje apagar da memória uma lembrança, esta sendo geralmente triste, associada à dor emocional ou física, relacionada a abalos psicológicos, uma vez que lidar com o sofrimento é uma arte para a qual nascemos sem aptidão. entretanto, existem pessoas cuja vontade seria a de eliminar da memórias traços vividos em êxtase de alegria e contentamento, como se fosse possível, então, reviver aquelas energias positivas, na mesma – ou talvez até em maior – intensidade, como se fosse a primeira vez.
            “brilho eterno de uma mente sem lembranças” me levou a pensar nisso. e então lancei uma pergunta, no facebook e no twitter: “se você pudesse apagar de sua memória uma lembrança, qual você apagaria?”. uma pergunta capciosa, obviamente, digna de não ser respondida, pois quem é que vai abrir-se nas redes sociais para responder a algo íntimo? mas justo por esse motivo a lancei, a pergunta, envolta em uma tênue linha de esperança, de me deparar com algo sincero e corajoso.
            recebi, pois, algumas poucas respostas, a maioria apontando o não-apagar das memórias, sejam boas ou ruins, sob o argumento de, assim, não excluir da vida as experiências vividas, sendo estas constituintes da formação do indivíduo enquanto sujeito. respostas, portanto, fluidas, contornando a pergunta, porém não a respondendo, afinal, conforme argumentado acima, ao respondê-la, escancara-se uma individualidade por si só subjetiva e, nesses momentos, a timidez assume o lugar da autopromoção, característica humana acentuada pelas redes sociais.
            ainda, no mesmo dia em que terminei de assistir ao filme no qual jim carrey e kate winslet lindamente protagonizam o amor e seu entorno – eu costumo dormir ao assistir a filmes, então, faço isso em etapas – eu finalizei a leitura do “barba ensopada de sangue”, do daniel galera, cujo resultado foi um despertar desta croniqueta, partindo do pressuposto de que a tentativa de apagar da memória a existência da pessoa amada – o ponto central da película – se apresenta como oposta à busca protagonizada pelo personagem barbudo do romance livresco, focado no objetivo de acrescentar vivências à sua memória; no caso, descobrir mais sobre o avô, a ele desconhecido a não ser pelas palavras proferidas pelo próprio pai, um dia antes de suicidar-se.
            é esse o mote da narrativa tensa desenvolvida pelo escritor gaúcho, na qual me senti mergulhado, ora identificando-me com a reclusão do personagem principal, ora sendo tomado pela curiosidade oriunda do suspense em torno justamente desse desejo do personagem em encontrar o avô e, por consequência, acrescentar vivências, emoções e informações à sua memória. de fato, o professor de natação – o protagonista do romance – quer experimentar algo como sendo a primeira vez. nem mesmo a sua face ser semelhante à do avô o satisfaz, ele pressente a necessidade – ainda que somente intuitiva, sem certeza concreta de algo – de ver o pai de seu pai para então compreender-se. e, independente dos acontecimentos futuros – não vou lançar spoilers –, o personagem não deseja apagar da memória suas vivências, e nesse contexto se insere sua segurança em não exercer o perdão, por exemplo.  
            essa contradição, a meu ver presente nas duas histórias – o desejo em apagar algo da memória e o instinto em viver descobertas familiares –, apontou-me algum caminho para pensar o ato de reler um livro e de assistir novamente a um filme, peça teatral ou espetáculo musical, destacando a quantidade de vezes nas quais nossa intenção é a de voltar a uma história já conhecida, seja para lembrar de detalhes narrados, ou até mesmo com o objetivo de reviver aqueles sentimentos vividos enquanto nos deparávamos (pela primeira vez) com tal referência cultural. como se fosse possível vivenciar exatamente tais sentires.
digo isso porque tenho comigo a crença de que novamente deparar-se com uma obra de arte acaba sendo uma nova primeira vez, afinal, constituímo-nos diariamente enquanto sujeitos, ou seja, somos formados por nosso entorno, concomitantemente modelando-o – ideia filosófica do materialismo dialético concebido por nosso amigo marx – e, assim, a cada nova interpretação construída junto a algum elemento artístico, é um novo eu a ler ou assistir àquele elemento. portanto, não existe em mim o desejo de, por exemplo, apagar da memória romances já lidos ou assistidos, porque o ato de reler ou rever é, por si só, inovador, a primeira vez é sempre.
       e, finalizando momentaneamente esta conversa, a rafa bem lembrou: recordar vem do latim “re-cordis”, ou seja, tornar a passar pelo coração – frase presente no “livro dos abraços”, do eduardo galeano – o que ratifica o argumento central desta croniqueta. sendo assim, logo, logo eu voltarei ao brilho eterno e ao barba ensopada, do mesmo modo como há pouco tempo entrei novamente na trama de “os meninos da rua paulo” e de “apenas uma vez”, ressignificando-os, pela primeira vez.

ítalo puccini 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

cê: cinco

(...)
eu já me apaixonei, sim. faz tempo, mas já me apaixonei. acho que foi só uma vez mesmo. não dou importância aqui às paixonites da infância e da adolescência – porém, por vezes penso que devesse importar-me com isso, sim, pela beleza e pela sutileza e pela pureza daquelas paixões. mas prefiro tratar aqui das paixões já depois de adulta. quer dizer, ali quase adulta, saindo da adolescência, que é quando a gente passa a ter mais controle sobre os próprios atos, a equilibrar melhor o que pensamos e a forma com que agimos.
bom, mas eu me apaixonei foi por um cara mais velho que eu. mesmo que eu more sozinha há bastante tempo (morar com a própria mãe é quase que morar sozinha, sim. eu pelo menos assim considero) gosto da ideia de ser cuidada por alguém mais velho – um cuidado do qual sinto falta. gosto da ideia de ter alguém em quem me apoiar nos momentos de queda, de fraqueza, de tristeza. vejo os relacionamentos como algo assim, uma vida a dois, não cada um cuidando de sua própria vida, e sim dois que cuidam de uma vida a dois. talvez por isso eu esteja há tanto tempo sozinha. quem sabe?
mas eu não fui sempre uma mulher sozinha, não. posso estar sozinha há bastante tempo, mas não desde sempre. eu já namorei, por exemplo. já namorei por sete anos. com esse homem pelo qual fui perdidamente apaixonada. eu gostava muito do marcos. nós nos conhecemos na faculdade: eu cursava pedagogia, ele, marketing. pelos corredores universitários nos conhecemos. não foram amigos que nos apresentaram, não. eu nunca tive uma vida social ativa. o marcos, sim, o marcos vivia entre amigos e amigas. e por tanto nos encontrarmos sem querer pelos corredores da universidade, um dia ele parou e me cumprimentou, perguntou que curso eu fazia, em que fase eu estava, e outras perguntas das quais eu não me recordo agora. mas eu lembro da minha reação naquele momento, um misto de felicidade e de medo. é possível perceber o quanto sou insegura, não é? lembro-me de ter falado pouco para o marcos naquele dia. coitado, deve ter ficado assustado, algo assim. nunca perguntei a ele o que ele achou de mim naquele primeiro contato.
depois daquele dia, encontramo-nos mais vezes pela universidade. por outros corredores. era engraçado, até. ríamos assim que nos víamos de longe. e parávamos o que estávamos fazendo para conversar. em pé mesmo. nos corredores mesmo. não me recordo agora por quanto tempo ficamos assim, nessas gostosas conversas. do que me lembro foi do dia em que o marcos me pediu se eu não gostaria de sair com ele no final de semana. comer uma pizza, ele sugeriu. eu achei ótimo. eu adoro pizza. e ele me parecia, de fato, uma excelente companhia para comer uma pizza. aceitei na hora. e naquele final de semana fomos à pizzaria. era uma sexta-feira, sei disso. e no sábado nos vimos novamente. e no domingo já estávamos namorando. foi tão bonito. foi tão legal. depois de um mês, então, de saídas aos fins de semana e de “esbarrões” pela faculdade, apresentei o marcos à minha mãe. e pouco tempo depois fui apresentado à família dele. ele, apesar de mais velho que eu, ainda morava com os pais. eram somente os três.
namorei por sete anos. talvez eu pudesse contar como foram esses sete anos de namoro. como foi o primeiro ano, depois o segundo, e assim contando ano a ano, para quem sabe entender porque não namoro mais, porque meu namoro de sete anos acabou. mas não vou contar agora porque e como meu namoro acabou. fico satisfeita de ter dito que já me apaixonei, sim, que já namorei, sim. que foi bom, foi muito bom enquanto durou. as dores consequentes de um rompimento amoroso eu deixo para escrever em outro momento.
vou dizer agora que gostaria de me apaixonar novamente, sim. gostaria muito, muito. mas eu pouco me relaciono com as pessoas para conseguir isso. eu tenho poucos amigos, talvez já tenha sido possível percebido. tenho duas amigas mais próximas, assim, com quem converso pelo telefone. e tenho um amigo só, que é mais distante. é escritor, vive ocupado, dá aula em universidade, vive lendo, escrevendo, rodeado de amigos chiques, de pessoas conhecidas, inteligentes. ele até me convidava bastante para acompanhá-lo nesses eventos no começo de nossa amizade. mas eu sempre neguei. um pouco, devido ao ciúme do marcos. o marcos morria de ciúme dele. mas um pouco por mim mesma. eu tenho muito medo de gente. tenho medo de parecer burra. tenho medo de ser inconveniente, de estar atrapalhando algo. por isso não procuro as pessoas para sair, não. no máximo minhas duas amigas, para um café da tarde aqui no apartamento, mas já faz tanto tempo. elas gostavam muito da minha mãe. davam-se super bem. ajudaram-me bastante nos últimos meses. agora se afastaram um pouco. tadinhas. vai ver cansaram também de dar conta de mais uma vida assim. eu as entendo.

mas, então, como eu ia dizendo, tenho bastante vontade de me apaixonar novamente, mas não sinto disposição para aquele processo de conhecer alguém, de pisar em ovos para não desagradar tal pessoa, de se esconder muitas vezes para só mais tarde revelar-se por completo. não gosto disso. tenho medo mesmo. logo, prefiro minha quietude (eu gosto tanto dessa palavra). prefiro meu silêncio aqui. meus cadernos de aula, meus livros didáticos. meu rádio ligado na estação de rádio aqui da cidade. uma vez ou outra algum livro como companhia. sou feliz assim. acho que sou feliz assim. contudo, quem sabe eu não pudesse ser mais feliz se eu saísse, se eu me dispusesse a conhecer pessoas novas, a circular por outros meios, a fazer outros caminhos, a sair mais de casa. quem sabe?
(...)

ítalo puccini 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

os sentinelas

I

sinto medo de ir dormir e, ao acordar, ser notícia,
estar nas manchetes dos sites e dos jornais impressos,
culpado por ter falado durante o sono
ou por ter ido dormir de meia branca,
sendo que o chão da casa estava sujo.

sinto medo de sair de casa e, ao voltar, ser barrado
por repórteres, cinegrafistas, curiosos, no portão da minha casa,
questionando-me por que fui trabalhar sem
gravata, justo hoje que todos haviam combinado
em vestir-se com traje fino.

sinto medo de abrir meu e-mail ou minhas contas em redes sociais
e ler pessoas escrevendo em caixa alta
para anunciar a venda do caixão que era do bisavô – agora cremado –
ou para defender uma opinião:
“MAS ISSO É SÓ UMA PIADA!”

agora, com esses medos, sei porque minha dor de ouvido não passa.
são essas exclamações ao final de cada frase,
são as palavras em caixa alta,
são as frases que eu digo ou escrevo no dia-a-dia
e que se tornam manchete ou piada em grupos de whatsap.

se eu não soubesse ler, não me incomodaria com isso,
e, também, não sentiria medo ao acordar ou dormir.
tudo é culpa da leitura, da minha ânsia pelas letras,
do meu desejo de ler, reler, transler e sentir
cada átomo de vida que se encontra ao redor de mim.

se somos aquilo que desejamos,
meu medo é fruto de meu sentimento de culpa,
meu medo vem dos poemas que li,
porém, com eles me defenderei
de tudo o que corta, morde e fura.

ao meu lado estarão:
drummond e seu tempo de homens partidos,
joão cabral e a faca só lâmina,
hilda e seus desejos,
manoel de barros e a natureza que é palavra,
leminski e o destino com o qual não se discute.

ítalo puccini